sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Soraya

Soraya cansara-se de ler. Ultimamente, os textos com os quais brindava sua imaginação falavam muito e diziam pouco. Bocejara longa e sinceramente e, após segundos de reflexão, acendeu um cigarro mais longo do que grosso. Sua imaginação prendeu os olhos azul-acastanhados naquela cena: o fogo destruindo lentamente aquele pequeno amontoado de tabaco e veneno. Soraya sentia-se estranhamente perturbada. O fogo lhe trazia sensações conflituosas e transtornantes. Finalmente, a campainha soou. Chegara à porta a tão esperada visita matutina. Apagou o cigarro na cantoneira da sacada do aconchegante apartamento vitoriano no qual residia e, em passos largos e nada tensos, dirigiu-se à entrada de sua casa. No corredor, parado como se estivesse embriagado pela timidez e pelo sadismo típicos de psicopatas medíocres, um homem rude, velho, gordo como um porco e fedorento como uma raposa molhada. Soraya convida-o a sentar-se em uma de suas poltronas macias e perfumadas de almíscar. Uma pena, uma grande pena contaminá-las com o odor daquele sujeito sinistro. Sem meias palavras, ao olhar sádico daquele senhor, a bela moça de ruivos cabelos despe-se e expõe toda a beleza com a qual seus vinte anos lhe brindavam. Manteve sobre a pele apenas uma negra liga rendada. Nada mais. Como uma ginasta preparando o grande salto, faz um gesto leve e suave para aquela criatura subumana. Sem mais suspiros ou delongas, o cidadão sem nome toma Soraya pelos cabelos, joga o hálito podre de conhaque e cigarros baratos em seu rosto e, como um algoz ante a preza, passa a rasgar o pouco que sobrou das roupas da menina. Animalescamente, o distinto senhor abre sua calça o mínimo necessário para realizar o ato ao qual se preparava. Grunhindo como um animal selvagem, ama com fúria aquele corpo esculpido pela paciência e talento divinos. Durante aproximadamente uma hora, Soraya passa em silêncio o martírio de um semi-estupro velado pelas imitações baratas de Rembrandt e da Vinci. O homem seguia suas investidas, ora tomando-a por cadela, ora tomando-a por mulher respeitável. Transou com aquela garota como se ela fosse uma boneca de pano, como se tratasse de um objeto descartável. Gozou intermináveis vezes, nunca desistindo. Usou os caminhos normais e os não tão usuais assim. Quando acabou, fechou a calça, desferiu um violento tapa no rosto de Soraya, lhe jogou algumas notas e saiu porta afora. Soraya derramou uma única lágrima. Não tinha mais tempo para lamentar. As treze horas vinham chegando, e seu próximo cliente não poderia encontrar o recinto com aquele nojento cheiro de sexo mal feito.


"Sexo verbal não faz meu estilo. Palavras são erros, e os erros são seus. Não quero lembrar que eu erro também"

Um comentário:

Willian Araújo disse...

descrição perfeita!
muito bom texto!