quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma promessa em deleite

Havia dias que ela fora possuída por uma idéia fixa. Tinha um amante, é bem verdade, mas este já era mais um devaneio do passado, uma bruma na ausência do nada, do que uma história a ser considerada. Sentia o suor correr por cada centímetro de seu corpo minúsculo. Olhara-se no espelho. Quantas vezes cumprira aquele mesmo ritual em vão? Quantas vezes tentara embelezar-se a fim de que fosse notada por seus olhos, sem o menor êxito aparente? Não desistia, no entanto. Pusera uma longa saia, esvoaçante, acompanhada de uma blusa simplória e jóias ripongas. A bem da verdade, não era de muitos atrativos, mas era o que poderia ofertar, afinal. Paciência. Fechou a porta atrás de si, dirigiu-se ao ponto de ônibus, prostrou-se inerte ouvindo o som que emanava de seu pequeno aparelho radiofônico. Os minutos não passavam. Seria naquele dia, não poderia haver outro, seria então ou nunca! A linha chega, enfim. Senta-se, como todos os dias, à janela esquerda, no intuito de contemplar a miséria e o resplendor dicotômicos da vida. Cerra os olhos e vislumbra seu futuro de flores e cores sutis, danças perfumosas nos jardins da vaidade. Chega, cautelosa, ao seu destino. Onde ele estará? Seu coração, tão acostumado àqueles joguinhos de caça e presa, insiste em bater mais forte do que o necessário para um lobo do mar em reles tempestade de verão. Ao girar lentamente a face, toma em seus olhos o semblante pelo qual tanto esperava. Branco, plácido; pálido e cálido. Sua estima negativa fazia com que pensasse na rejeição eterna, no descaso de seu anjo para com seus desejos mais profundos. Saberia ele? Sonharia que aquela menina o desejava da forma mais insana e desajeitada possível? "Oi". Nada mais saira de sua boca. O que falar agora? Baixar a máscara? Desvestir a carapuça? Num repente de auto-confiança ela lhe faz o convite que há séculos umidecia sua língua, mas não se projetava boca afora: "Estuda comigo amanhã?" A resposta fora afirmativa, para seu regozijo. Tremera, sorrira sozinha, comemorara com seus insensos e discos de Pink Floyd. A noite passara longa, em brancos sonhos e maculadas nuvens. Amanhecera, mas ninguém o percebeu. O raiar do dia é soturno para os que vivem da aragem noturna. Enfim, as quatro horas da tarde. "Triim", a campainha! Jamais ela percebera seu coração tão pulsante. Como agir? Como disfarçar? Estudar? O quê? Poderia, quiçá, lhe oferecer bolinhos-de-chuva, mas isso seria ainda patético e pouco discreto. Milênios transcorreram naquele divã até a hora derradeira. "Me conta uma história?" Incrível como a memória feérica lhe falhava quando dela mais precisava. "Era uma vez uma princesa que tinha um príncipe..." A partir dalí, o universo virou mágica e o instante virou milênio. Cada toque era a representação do paraíso, da celestialidade mórbida dos amantes sádicos. Entretanto, naquele instante, havia apenas amor. Amor recolhido aflorando da maneira mais harmônica e sutil. Paixão e desejo embebidos no licor da cumplicidade. Jamais ela vislumbrou que pusessem transcorrer tão perfeitamente aqueles instantes. Cada som, cada toque, cada raio de luz a transpassar as cortinas eram uma sinfonia no bailar da felicidade. Os corpos uniram-se ávidos pelo torpor, e este brindou-os com a mais bela das facetas da magia. Os instantes antes resguardados à imaginação e ao desejo recolhido brotavam da mais bela semente. Amaram-se sutilmente por dias, sendo o tempo uma noção vaga e distante. Certa vez, então, o instante único se faz presente. Ele treme, ela sente-se uma virgem na carne de mulher prostituída. Esquece-se, naquele momento, toda sua história factual. Havia apenas ele e ela. Um em dois, dois em um. Um amor instantâneo para a eternidade. Ao som da psicodelia da música progressiva de uma banda qualquer, ele a penetra como se descobrisse o segredo de seu universo. E o descobre. A partir daquele instante, o pobre rapaz fora condenado a levar consigo a chave da alma daquela mulher perseguida pela demência. Ela o amaria, ao seu modo, para todo o sempre. E bem sabemos que nem sempre isso seria bom. Mas ela o amaria, como sua caça, como seu fruto proibido, como a mais bela flor na árvore da vida. Naquela noite, transpirou alegria em sua grande cama e gemeu baixinho os desejos havia tanto resguardados em seu íntimo. Amariam-se para sempre, na imensidão da maquiavélica e perversa mente infantil daquela menina. Um amor eterno, um amor sem fim. Um amor para guardar na inocência da infância e na masmorra fétida da passagem do tempo. A única verdade invariável no curso da história dos homens é o que estes, de fato, sentem. E aquela menina e aquele menino o sentiram. E, creio, o sentirão para sempre.

"You and me we can light up the sky/ if you stay by my side /we can rule the world"

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