domingo, 20 de julho de 2008

Noite

Quem era o dono daquela voz? Tâmis andava insandecida demais para a pouca quantidade de heroína que consumia naqueles dias. Estava acabada. Deixava transpirar em cada expiração o torpor e a agonia de estar só. E, ainda que permanecesse letárgica, catatônica, envolvida debilmente pela situação formada, pintava no ar uma aquarela de sons e sentires livres tal qual brisa de verão. Tâmis não nascera para compromissos sentimentais. Tâmis era volúvel ao ponto de trair a si mesma ante o espelho. Era vítima de seus prazeres, vítima de suas convicções. Acreditava apenas no triunfo da vontade. Transparecia auto-confiança e auto-suficiência para no mínimo sete vidas, tal qual felinos, os quais tanto detestava. Amava-os, na mesma instância, entretanto. Gatos eram sua grande metamorfose. Sentia-se assim, percebia-se como um bichano mimado. Gostaria de receber o mesmo tratamento que tais animais, estabelecer fugas noturnas, temperamentos contrapostos, desprezo escancarado e, quando na carência de atenção, ronronar e receber instantaneamente a mão hábil de seu dono, dono este que deixava-o crer em sua liberdade, ainda que esta não exista de fato. Voltara a odiar gatos. Acordara confusa. Havia milhares de trabalhos, leituras e textos pendentes, mas Tâmis apenas conseguia pensar em sua dor, seus devaneios felinos e na ausência de dinheiro para mais drogas. Olhara-se no espelho. A quem fitaria? Quem era aquela garota? Para onde iria? Percerbeu-se absorta naquele transe por dias, e as férias chegam, enfim. Decide expurgar seus demônios em um rito coletivo. Ao menos prefere enxergar dessa maneira um bar, cervejas baratas, pessoas mais baratas ainda. Pessoas em promoção, vidas nos balaios de ofertas. Oferendas ao prazer, ao instante. Cativante. Tâmis bebe. Bebe. Bebe mais. Amigos a cercam, mas ela sente-se num deserto d'alma incompreensível àqueles que nunca atravessaram as cordilheiras da solidão. Pensava em Joan, e em tudo que viveram. Pensava em como desperdiçara tudo, em como essa situação lhe causava pânico. Divagava, entrementes, em como se sentia pura e lépida. Sem máscaras, sem fantoches. Ela em sua essência, ela em sua pureza, ela dentro dela. Uma masturbação mental lhe ofuscava a racionalidade. Nada a chamaria de retorno ao universo dos humanóides simplórios aos quais rejeitava sem perceber o quanto assemelhava-se a eles. Tâmis atingiria o maior orgasmo de sua vida quando um copo gelado bate em sua nuca. Era Joan. Tâmis não soube o que pensar, tampouco o que fazer. Beijou-o com volúpia, quase com desespero derradeiro, na ânsia de obter um novo caminho para seus medos e para seus egocentrismos. Permaneceu inventando aquele amor para divertir-se. Para libertar-se. Tâmis definitivamente não compreendia o que se passava com ela, com o mundo, com as pessoas que a cercavam. Pensou no aluguel do mês seguinte e na morte de um quase avô. Quis mais heroína, mas Kate estava muito longe para consegui-la. Trocou palavras evasivas com amigos nos quais confiava mais do que em si mesma. Temia tudo aquilo. Temia com todas as forças que um único espírito poderia suportar. entornou mais cervejas, mais e mais álcool a cada acorde da música que tomava conta do lugar. Decide deixar-se levar. Ao lado de Joan, segue para lugar distante. Lágrimas tomaram conta de sua face quando percebia o que fazia. Lágrimas que apenas Tâmis sentiu, uma vez que misturaram-se ao suor que desprendia-se de seu rosto naquela noite fria de inverno. Clic. A luz se apaga. Apenas a respiração dela mesma consegue transpor os umbrais de seu egoísmo. Joan era mesmo um nome comum. Ainda bem. E a conta de luz continua vencida, e Maddy ainda não tinha seu presente de aniversário.

"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida."

2 comentários:

Acervo Café Frio disse...

Torcendo por Tâmis, que Joan a faça feliz...Não chora mais Tâmis, a vida é boa.

Acervo Café Frio disse...

www.acervocafefrio.blogspot.com

atualiza magrona