Estranho sentir-se um transeunte em sua própria casa. "Te serve, guria, primeiro as visitas"! Droga, já passa das oito, ainda estou na cama, o pessoal não vai gostar. "Quem quer ter um dia decente tem de sentir o sopro do ar da manhã"! Vontade de fumar um cigarro. "Posso me esconder aqui"? É por demais complexa a teia de relações que se estabelece quando você passa a ter como endereço uma residência que não é mais exclusivamente aquela na qual a maior parte dos seus dias transcorreu. Desde o processo de feitura de malas (malas para ir pra casa?) até a chegada teatral. Tudo teima em tentar lhe mostrar que agora você não faz mais parte daquilo. Sua presença, além de alegria e muitas vezes mais do que isso, causa transtorno. Haverá o que ela gosta? Troquei seus lençois? Estará ela confortável neste colchão novo? E na verdade tudo que se quer é o aconchego torto da casa paterna, materna, familiar. Acaba, ao final, tudo sendo transformado num teatro, e vez por outra até mesmo vislumbramos uma pontada de ansiedade negativa. "Quando ela vai voltar mesmo"? Voltar. Sim, voltar para a sua casa. Acredite, você é amado, adorado, venerado. Mas aquele não é mais o seu lugar. Da mesma maneira que estabelecemos rotinas novas e particulares, nos acostumando a um universo novo e possibilidades distintas, o mesmo ocorreu com aquilo que deixamos para trás. As lágrimas desesperadas de nossas mamães às primeiras partidas da rodoviária foram sendo tomadas pela sedutora possibilidade de adquirir um espaço a mais para guardar caixas e quinquilharias. Afinal, aquele quarto está ocioso, ninguém mais vai se trancar nele, o barulho do teclado do computador e da música fanha e repetitiva vai ser tomado pelo silêncio quase constrangedor de uma vida nova. Uma vida sem mim. Um vida sem nós. Quando estamos em nossos novos lares, absortos em nossa própria falsa consciência de liberdade, exultantes pelas soturnas noites de inverno que poderemos transcorrer solitários e boêmios, quando nos tornamos donos de nossos passos, sem horas, sem moras, sem morais, esquecemos que algo se passa do lado de lá. E é esse outro lado que nosso egoísmo e nossa megalomania nos impedem de perceber antes da derradeira hora. E este instante é exatamente aquele em que tentamos abrir a porta e a fechadura foi trocada. "Ah, meu filho, esqueci de trocar... amanhã a mãe te dá uma cópia nova"! É, amigos. E assim seguimos nosso caminho. As ruas da cidade são as mesmas, os contornos das velhas edificações ainda estão lá. Os vícios, as virtudes. Nós e tudo o mais. O que não existe, no entanto, é aquilo que mais esperávamos ver. O passado, esse velho sacana, não volta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário