sábado, 25 de dezembro de 2010

Dezembro

De algum modo você pensa que conseguirá fugir dele. Esconde-se no banheiro, no porão, no subsolo, em algum quarto de pensão. Não. Ele vem. Ele sempre vem. Com fúria de titã veterano, segue seu curso pela história da humanidade levando consigo mais e mais almas a cada novo solstício. Ele lhe segue, sorrateiro e silencioso, deixando em suas pegadas mornas apenas o bafo quente do hemisfério sul em meses de verão. Você, por sua vez, o ignora. Finge não estar acontecendo, encena uma valsa leve no meio dos tropeços e escorregões que ele traz consigo. Pessoas, infinitas pessoas. Vozes, sons, cores e tons. A canção secular em sequência que evapora da loja abarrotada de vidas apressadas. O cheiro agridoce daquilo que ainda não veio mas já nos deixa nauseados. É como abrir uma conserva de rabanetes num quarto fechado. Podridão empanada em brilhantina. Todos querem a luz que vem da estrela mais cara e mais dourada. Que seria dos infantes se soubesses que o brilho que enxergamos dos astros na maior parte das vezes nem existe mais? Enquanto seguimos envoltos em nossos próprios dramas de consciência os menos afortunados tentam, em vão, tirar algo de proveitoso deste maldito passante. Um quinhão, um bordão, um empurrão.



Descendo a rua pela terceira vez naquela semana percebi mais uma vez a movimentação alucinada de meus conterrâneos por conta dele. Todos parecem querer recebê-lo com mais luz, com mais pompa, com mais circunstância. Perde-se, no entanto, o real sentido disso tudo. Perde-se o fascínio verdadeiro e sincero da criança que cresce sem luxos e sem adornos e deixa desabar o mais sincero dos sorrisos quando vê o brilho dele. Isto sim é festa, isto sim é abrir portas para deixá-lo entrar. Isto sim é Natal!

"Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel... "

2 comentários:

Anônimo disse...

Grande Ananda! Blog bacana. :)

Carlos Quadros disse...

Fato, o dezembro poderia (e deveria) ser muito melhor!