
Acendeu o cigarro após oito tentativas frustradas. Por que insistia nos fósforos se o isqueiro custava menos de meio maço de Free? O vento suspirava cantigas mórbidas junto com a chuva fina que tomou de assalto meia cidade desprevenida. Arrepiou a pele, viu tornar-se azul o tom amarelado da cobertura natural de seus músculos. Merda!, a água alojara-se nos sapatos, nos cabelos, nos óculos e na alma. Afogada em meio a um oceano de solidão. Dez minutos depois, o ônibus e todas as coisas que o fazem transporte coletivo: pessoas, braços, pernas, cheiros, moedas, mochilas, cores, sons e uma tradicional e quase monótona claustrofobia. "Será que nessa velocidade ele não vai tombar na curva da rótula? Melhor sentar do lado de lá..." Escolhe o banco detalhadamente, lugar aquele que ela sabe que ninguém mais vai querer dividir. Ninguém quer correr o risco de ter de levantar no meio do percurso para ceder lugar a um idoso, à uma gestante ou algo que o valha. Vai pedindo baixinho para que ela também não o tenha que fazer. O coletivo roda pela estrada pavimentada e o percurso segue, retilíneo, em meio a pequenas interrupções abruptas e aleatórias. Gotas cristalinas caem perpendicularmente ao vidro e correm contra a gravidade. Estranho. Sua imaginação faz a mesma rota. Contra a lógica, contra os fatos, contra suas próprias perspectivas e seus mais luminosos planos. Desmontes e desmanches das utopias gloriosas. Infantes bastardos lutando pela vida na Idade Média da vaidade alheia. Vermelho. Sinal vermelho. Uma curva, uma esquina. Verde, sinal verde. Ao infinito e além, meus passos e o trânsito. Quase ao final da linha, o sol volta a brilhar, rosa-alaranjado, por entre nuvens azul-petróleo. Amarelo, sinal amarelo. Esquina, parou. Desceu, tropeçou, não caiu. Procurou a chave no meio da bagunça de sua vida e encontrou a fechadura da existência humana. Calçadas frias seguem amparando os passos de quem vai, sem saber onde ir. Cril, cric, clac. O cheiro característico do velho, do antigo, do saudoso. "Ah, que droga, molhei meu sapato novo!" O novo, que sempre vem, diminui a capacidade de raciocinar quando não dosado. O velho, que sempre vai, leva a harmonia da verdade se não for filtrado. Alguém surrupiou a beleza da última flor da primavera? Vejo tantas borboletas mas nenhum jardim.
"Hey seu motorista/ vai mais devagar/ que desse jeito/ vivo eu não vou chegar./ Eu não tenho pressa/ pressa de morrer/ pra chegar cedo/ o bom é ir devagar."
2 comentários:
Bléééé cigarros são tão desagradáveis
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