
O ano era 2074, e aquele verão se mostrava ainda mais severo do que o anterior. Sentada na varanda singela da choupana na qual desprendera seus dias nos últimos 52 anos, Felicidade suspirava com uma delicadeza que nunca possuíra. Fora uma bela moça, ardilosa, escorregadia. Hoje, cabelos honradamente nevados, cinzentos como a poeira do vício que nunca a abandonara. Observando as folhas que dançavam ao sabor da brisa vespertina, Felicidade pousou sobre o regaço uma ponta de saudade. Como tudo passara correndo. O tempo, algoz da vaidade, levara consigo a harmonia da juventude. Convivia, no entanto, de forma pacífica com os dramas da velhice. Fechara os olhos e demoradamente relembrara o dia mais feliz de sua vida. Vinte e dois de dezembro de dois mil e dois. Naquela madrugada conhecera a grande razão de sua existência, o dono de cada passo, a vítima de cada erro. Anos tiveram de passar até que tamanha paixão conseguisse acomodar-se em corações tão desacertados. Fora apenas em 2017, quando a elasticidade de seu rosto já cumprira boa parte de sua jornada, que aceitaram-se como eram. Foram três dias e três noites de choro e desculpas, noventa por cento da parte dela. Nunca, nos quinze anos que os separaram, Felicidade deixou de andar ao seu lado. Sempre esteve lá, ainda que velada, ainda que catatônica, ainda que prejudicial. Mas nunca, por um segundo, esqueceu-se dele. É fato, conheceram outras verdades, outras vidas, outras paixões. Os anos e as pessoas não passam despercebidos pela roda da existência. Enfim, o derradeiro último reencontro. Daquele instante, para a eternidade. Nem a morte, nem a vida, nada tornaria a separá-los. De Paris, circunstancial paragem onde se deu o final recomeço, para o mundo. Viajaram pela África e pela Ásia. Foram ao Taj Mahal, realizar o sonho de Felicidade. Fora de navio, realizar o sonho de Lobo. Lobo, seus olhos de piedade, seu sorriso de infante, sua pele de cetim morto. Não haveria outra forma de amar. Não havia como amar mais. Cada milímetro de Felicidade era devidamente entregue a Lobo. Viajaram onze meses. Peregrinaram mais quatro anos entre empregos, trabalhos e todo o grupo de necessidades mundanas e fisiológicas. A alma, essa deleitava-se a cada segundo, imersa até a última centelha naquela entrega ao outro. Afinal, em 2022, vinte anos depois de terem se amado a primeira vista, voltaram ao lugar de onde nunca deveriam ter saído. Ergueram uma casa, com patos e papagaios nas cercanias, e plantaram o mais belo dos plátanos que já foram plantados no estado do Rio Grande do Sul. Não tiveram filhos, Felicidade descobrira que não os poderia ter ainda bastante jovem, durante uma das grandes brigas que tiveram. Um vazio que compensavam cada vez mais com o amor que crescia, a despeito da grandeza que já possuía. Balançando seu corpo cansado pelo peso das décadas, Dona Felicidade deixa cair pelo canto esquerdo do olho direito uma única lágrima, que veio a morrer no esboço de alegria dos seus lábios. Tivera uma boa vida. Fora feliz, apesar das prerrogativas contrárias. Viveu a alegria e a tristeza nas chagas que a vida lhe deixara. A noite vem caindo, o alaranjado e o azul-mar mesclando-se sobre o firmamento ante seus olhos. Ah, aquelas tardes no jardim apartado. Ah, aquelas noites sob as estrelas. O vento morno bate-lhe ainda uma vez nos ombros, fazendo mexer sua cadeira. Desce lentamente as mãos para o colo, e as cruza, como para uma oração. Sempre orara, apesar do ateísmo de Lobo. "Que seja bom, que seja infinito, e que eu nunca mais te perca." Ao infinito, e além. A noite caiu, e Felicidade deixou de respirar com o mais belo dos sorrisos na face. A expressão de quem viveu, de quem honrou seu nome.
Do lado de dentro da casa, os poucos familiares restantes de Lobo e Felicidade discutiam, perplexos, como ela suportou friamente aquelas primeiras horas da partida de seu amado. Não chorara, não entrara em choque. Nada. O temor de todos ante a primeira daquelas mortes era pânico coletivo e anunciado dentro e fora das pequenas famílias. Lobo morrera dormindo, tranquilamente, naquela tarde escaldante de fevereiro. "E agora, quem vai cuidar da velha? E agora, como agir com ela? E agora, o que fazer?" Ao contrario de toda e qualquer expectativa, Felicidade reagira com indiferença. Sentara-se sob o teto da velha varanda e passara a contemplar o poente. Aceitara um chá -de camomila, seu favorito- e nada mais. Apenas sorria seu mesmo riso contagiante de sempre. Uma vez um Preto-Velho lhe mandara rir e ela levara o conselho ao pé da letra. "Vó, olha aqui, nao quer um Rivotril? Adormeceu, eu acho." Ali continuara, serena, tranquila, sem dar um suspiro. Assim permaneceriam pela eternidade. Juntos, serenos, donos de toda paz.
"Venta, ali se vê... aonde o arvorendo inventa um ballet..."
Do lado de dentro da casa, os poucos familiares restantes de Lobo e Felicidade discutiam, perplexos, como ela suportou friamente aquelas primeiras horas da partida de seu amado. Não chorara, não entrara em choque. Nada. O temor de todos ante a primeira daquelas mortes era pânico coletivo e anunciado dentro e fora das pequenas famílias. Lobo morrera dormindo, tranquilamente, naquela tarde escaldante de fevereiro. "E agora, quem vai cuidar da velha? E agora, como agir com ela? E agora, o que fazer?" Ao contrario de toda e qualquer expectativa, Felicidade reagira com indiferença. Sentara-se sob o teto da velha varanda e passara a contemplar o poente. Aceitara um chá -de camomila, seu favorito- e nada mais. Apenas sorria seu mesmo riso contagiante de sempre. Uma vez um Preto-Velho lhe mandara rir e ela levara o conselho ao pé da letra. "Vó, olha aqui, nao quer um Rivotril? Adormeceu, eu acho." Ali continuara, serena, tranquila, sem dar um suspiro. Assim permaneceriam pela eternidade. Juntos, serenos, donos de toda paz.
"Venta, ali se vê... aonde o arvorendo inventa um ballet..."
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