quarta-feira, 16 de julho de 2008

Decomposição

Assuntos sepulcrais dominam minha mente e meus passos nesse dia. Sinto uma necessidade mórbida de escrever algo, uma aflição estranha que resisto em deter, indo além de minha pretensão racional. Não, não se aflija, caríssimo! Intuitos suicidas abandonaram meu rol de objetivos há mais tempo do que posso lembrar. É estranho, entretanto, como podemos ressuscitar assuntos dentro do mais lacrado dos leitos eternos. A morte me fascina, me detém, me assusta e alucina. Acima de tudo, a morte me preocupa. Temo repetir erros já cometidos em relação a ela, em todos os sentidos que a expressão possa abranger. Por favor, se uma palavra minha puder tocar seu âmago, lembre-se sempre, por mais piegas que pareça, que nunca saberemos quando será a última vez que veremos alguém. E acredite: um dia a despedida será eterna, irremediável, descomunalmente dolorosa. Arrependo-me daquele domingo em que não saí correndo a Cachoeira. Daquelas tardes em que troquei serenidade por curiosidade. Lamento não ter percebido o valor de quem amei antes. Dói perder, dói saber que a ausência e a distância podem ser eternas. Me estigmatiza a alma imaginar que o reencontro pode nada mais ser do que uma pretensão metafísica, um alento ao desespero alheio. Como tenho saudades de quem já se foi, em todos os sentidos conotativos e literais que a palavra morte possa ter. Morri tantas vezes. Consegui, por sorte retornar. Morri n'alma. Morro cada pouco com quem se vai, mesmo. Percebo que me torno evasiva. Sim, novamente chego a alusões feéricas e frenéticas graças àqueles que tão pouco conheço. Mais vidas que brindamos o início. Espero não perdê-los, para nenhum tipo de morte. Não me tome por dispersa, tampouco descontrolada pelo desespero. Apenas embriago-me no sono que não me alcança por horas e pela tristeza de assassinar partes de mim por egocentrismo desvairado. Ah, como gostaria de ser sábia o suficiente a fim de não mais me perder por aí!

"Remember when you were young, you shine like the sun."

Um comentário:

Felipe Severo disse...

A nossa conversa soturna parece ter despertado em mim e em ti as mesmas sensações... foi bom ler esse texto, pois senti tudo novamente! Obrigado, Ananda