segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Reencontro

Não havia nada de novo naquele sábado. Acordou de ressaca, como sempre; fez as malas às pressas e esqueceu a escova de dentes, como de costume; atrasou-se e teve de correr a fim de não perder o transporte, de forma habitual. Comprou o mesmo suco e esperou na plataforma de todos os outros dias. Resignou-se a esperar até o instante exato de sentar-se no lugar destinado, janela 21, lado do motorista. Igualmente às outras viagens, abriu o livro do momento e desistiu da leitura antes mesmo da primeira parada. O mesmo enjoou habitual. O sacolejar, o tremer. A mesma ansiedade pela nova leva de passageiros. Nada. Como sempre. Uma hora. Chegaram. Pontualmente, igualmente.

Tremeu ao ver que seus olhos falharam em uma das checagens no processo de transporte. Ele estava ali. E estava bem ali, a sua frente, afrontando sua temeridade com olhos de lobo voraz. Baixou a cabeça. Covarde, costumeiramente covarde. Desceu, tremeu. Perdeu o foco. Perdeu as beiras e as eiras como sempre ocorria quando sua aparição antevinha a seus olhos de cão arrependido. Segurou o arrependimento altiva, soberana. Deixou rolar pela garganta a lágrima da vaidade quebrada pelo descaso de seu pesadelo mais belo.

Nunca aquele pequeno trajeto demorou tanto. Argumentar e dar respostas eram processos quase impossíveis. Teria reprovado caso fosse uma prova oral primária, de certeza. Perdera totalmente a compostura, a vergonha, o apreço por seus culhões (os quais não tinha, era sabido, mas deseja possuir, para horas como essas). Desejou que o tempo parasse, que aquele carro parasse, que seu coração parasse, que a vida cessasse. Não aconteceu. Nem tudo é como se deseja.

"Não vou olhar para trás. Não vou olhar. Não vou. Não..."

Quando os olhos se bateram na imensidão do vazio daquele amor que já morreu, soube que algo vivia, que algo ainda palpitava, alguma coisa que permanecera não apenas dentro dela, mas dentro dele também. Então se deu por conta que, quiçá, seus desejos vergonhosamente escondidos em sua solidão não eram em vão. Talvez todos aqueles tormentos embriagdos em sua saudade ainda fossem possíveis, num recanto escondido da vingança ou da redenção.

Sonhou toda a tarde com ele. Delirou que faziam amor. Acordou com o desejo que nunca sentira, o desejo da discórdia, aquele mesmo que insistira em não nascer. Escreveu quatro cartas, guardou-as dentro de uma laranja mecânica. Não teve coragem de colocá-las por debaixo de sua porta, os fantasmas do caminho e de sua consciência não permitiram. Deixou-os dentro daquele horrorshow, tal qual seu coração. Adormeceu novamente e sonhou os mesmos sonhos, temáticas singulares numa pluralidade de sentidos. Naqueles devaneios eram felizes. Naquelas horas atingiam a plenitude.

Despertou, não o viu ao seu lado, seguiu. Será que ele vai estar lhe esperando no próximo adormecer?

Certamente, certamente. Caso contrário...


...não teria olhado para trás!

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