Era para estar mais quente do que estava. Ela finge que está em paz consigo mesma e com o universo, mas treme por dentro e por fora, pondo a culpa na falta de nicotina. Mais um dia como todos os outros em Balmorosia. Mais uma ciclo de repetições inovadoramente maçantes. Senta no banco e espera. Tem a mente longe, o espírito em alguma paragem da infância, da terna idade da ilusão. As pernas giram impacientes, trocam de posição entre si intermitentemente. O sol desce as montanhas despedindo-se como se fosse a primeira de todas as próximas vezes. É o reinventar da saudade, o recaminhar na estrada existencial. O segundo exato para mudar o resto da história. Ele chega. Ela sorri. Ele sabe o que ela pensa, ela sabe que ele sabe, e morre de vergonha por isso, escondendo-se por detrás da máscara burocrática das convenções sociais. Notara-o tão logo ele sorrira pela primeira vez. A clássica mescla de repugnância com simpatia fez-se presente naqueles minutos, por aqueles caminhos. Todos os dias ela via sua sombra indo de encontro a dele tão superficialmente que teimou em acreditar que estava errada, nunca conseguiria ler seus pensamentos. Como era bobo, como era ético. Os fatos seguiram nesse ritmo dentro do universo de Alicia até o dia em que seu mundo desabou como se fosse um grande e frágil castelo de cartas. Pedro, logicamente, não estava lá. Não havia intimidade para isso. Chorou. Implorou por piedade divina. Seguiu pelas calçadas da cidade sem rumo. Seguiu em direção a Pedro com a esperança última de fazer nascer ao menos um sorriso naquele entardecer. Aconteceu. Naquele dia Alicia percebeu que, definitivamente, a amizade perene que se estruturava com hora marcada entre os dois não resistiria como tal por muito tempo. Pedro era uma mistura tão bipolar quanto os psicóticos de plantão. Gritava, esperneava, falava alto, ao mesmo passo em que sorria e destilava compreensão pelas bordas que o envolviam. Alicia, naquele dia, percebeu que uma das inúmeras coisas que tremiam dentro dela tremiam por Pedro, e teve medo. Muito medo. Pedro, psicólogo por vocação, não tardou perceber. Em meio a delírios adolescentes, Alicia confessava alguns de seus segredos tão macabros quanto a ressaca moral do dia seguinte. Pedro a convida para o depois. Alicia aceita já no agora. No caminho para casa, perplexamente ela tenta saber se entrará no jogo por vontade ou por vingança. Decide que apenas a empiria poderá responder. Veste-se e perfuma-se com o nervosismo que antecedia as matinês do colegial. Sai. Espera. Sorri. Pedro é outro, não é o mesmo amigo Pedro. Há algo de diferente naqueles olhos de maresia. O sorriso aberto, amparado pelas covinhas infantis nas bochechas, faz Alicia perder o medo e a vergonha. Que importa o passado? Queremos o mundo, e queremos agora. No primeiro contato uma sentença: não estava ali por maldade, por auto-afirmação. Estava ali pois soube desde sempre que o gosto daquele beijo seria exatamente como foi. Perdera o domínio do jogo, perdera a noção do tempo e do espaço. Percebera que não estava numa partida de xadrez. Raciocinar e planejar o próximo ato estavam fora de cogitação. Céus, por que as coisas acontecem assim? Daquele momento em diante, Alicia já não sabia mais onde estava indo, só sabia que -naquele momento- não estava perdida (afinal, não aprendera a viver um dia de cada vez?). Beberam e fora muito bom. Jogaram conversa fora e foi melhor ainda. Fizeram sexo tão despudoradamente que ela não encontrou adjetivos para descrevê-lo. A noite acabou. Alicia em casa, "adeus, até mais, nada muda entre nós". Claro, por certo que não. Entretanto, ao baixar a cabeça no travesseiro, tentando encontrar algum sentido para o que aconteceu, aquelas estranhas borboletas que teimavam em não parar de voar em seu ventre a preocuparam. Dormiu e sonhou com ele. Primeira vez. Tudo tão rápido. Despertou e sentiu que algo dentro de si mudara, o sombrio sentimento da culpa deu lugar a algo mais leve, mais jocoso. Alicia foi até a janela e suspirou para o ar da manhã. O sol brilhava, desejando boas-vindas. Olhou para o relógio e deixou cair o lábio inferior. Ainda faltava tanto tempo. Mas a certeza estúpida de que esse espaço de vida passaria voando fez com que trocasse o momento de chateação pela mordida clássica no mesmo lábio. Era o sinal de que estava feliz. Era o sinal de que perder o juízo valera a pena.
"The night is coming and the starling flew for days... I'd stay home at night all the time... I'd go anywhere, anywhere... Ask me and I'm there because I care! Sara, you're the poet in my heart... Never change, never stop..."
"The night is coming and the starling flew for days... I'd stay home at night all the time... I'd go anywhere, anywhere... Ask me and I'm there because I care! Sara, you're the poet in my heart... Never change, never stop..."
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