O pior é saber que o principal destinatário não vai receber esta correspondência. Comecei, anteontem, a ler mais um dos clássicos da literatura gaúcha: Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo. Nada de tão excepcional, apenas mais uma história de um menino repleto de dúvidas e angústias que se deixa levar pela vaidade e pela ganância, refletindo uma cegueira absurda em relação ao que realmente constrói o caráter humano: a compaixão, a verdade, o amor. Eugênio, o personagem ao qual me refiro, passa por inúmeras crises de consciência, agravadas ou abrandadas de acordo com o momento e a situação. Resumo da ópera: já na metade exata do livro, a única criatura que conseguia despertar os verdadeiros e originais sentimentos de Eugênio morre. Fechei o exemplar, pus-o na mesinha de cabeceira exatamente ao lado de minha cama, depositei sobre ele o óculos que quase havia esquecido ante os olhos e passei a deixar a luz sombria que iluminava o ambiente guiar meus pensamentos por entre lembranças que tanto teimo em querer esquecer. Pergunta: por que esquecer o passado? Vergonha? Arrependimento? Medo? todos? Nem eu sei. A única certeza que ainda consigo esboçar é o total deleite desesperante no qual minha alma e meu coração estão embebidos há seis anos, três meses, vinte e cinco dias e doze horas. Eu lembro tudo. Cada minuto, cada segundo, cada expressão de estupidez ante o aspecto mítico que a representação daquele ser passava a minha vida tão inexpressiva, tão medíocre, tão tumultuada. Era como o raiar do Sol após semanas de tempestade. Amei desde o primeiro instante. Amei desde o primeiro olhar. Entreguei minha alma ao demônio que a requisitou sem olhar ou questionar. Ah, quantas mentiras, quantos enganos, quantas vidas envolvidas em uma história onde duas pessoas idênicas teimam em repreender-se mutuamente por seus erros. Raiva. Rancor. Ódio. Eu desprezei com a força de tufão o amor que me fora presenteado em forma de tempestade. Olvidei, no entanto, o terremoto que se dava dentro de meu espírito por renegar o óbvio, por comodismo ou falta de ânimo à luta. Preguiça. Conveniência. "Um dia, Ananda, tu vais casar com um médico, um doutor." Ri. Arquivei a afirmação. Os anos foram correndo e creio que eu comecei a levar a piada um tanto quanto a sério demais. Anos. Amores. Risíveis amores. Mudanças. De caráter, de vida, de tudo. "Novas pontes sobre rios de ignorância", como já canta a música. Desperto e penso que nada poderia ter sido diferente, que as coisas são assim mesmo e que o destino é esse aí, sem muitas delongas ou surpresas. Mentira. Mentira deslavada. Mentira deslavada e descabida. Toda vez que me deparo com aqueles olhos cor de profundo mistério, meu coração para. Cada vez que vejo, ao longe, a mesma expressão soturna, minhas pernas tremem. Toda vez que ouço determinadas melodias, minha alma chora. Vozes inconfundíveis, o maldito destino, o maldito eterno retorno nietzscheano jogando na minha face a verdade ácida que teimo em esconder de mim mesma. Sou Eugênio. Sou desprezível. Busco amor em todos os lugares e de todas as formas e esqueço que a única chance que tive de experimentar plenitude na vida desperdicei quando desisti de tua entrega para dar lugar ao provável, ao aceitável, ao concreto. Como me arrependo. Como sou covarde. A vontade que tenho é de jogar-me a teus pés, implorar por perdão, desmentir todas as inverdades e fazer de teu mundo um mundo melhor. Fazer de meu mundo um mundo melhor. Covardia assistida e premeditada. Por que não te conheci agora? Por que desencontros doem tanto? Nunca, jamais, sob hipotese nenhuma amarei alguém como te amei, como te amo. Sentirei um panapanã a dançar freneticamente em meu ventre todas as vezes que minha vista fitar teu cabelo. Os anos passarão e essa história seguirá, como numa soap opera barata. Pena que nosso final feliz foi arrancado das últimas páginas deste roteiro. N.e.q.e.a.m.v.
"Meus olhos doidos, doidos, doidos... são doidos por ti!"
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