terça-feira, 14 de outubro de 2008

Essa tal saudade

A chuva na Boca do Monte não deixa os santamarienses saírem da rotina. É impressionante como a torrente consegue trazer à tona meus sentimentos mais doces e nostálgicos. Sim, exatamente esses que você deve estar imaginado. Saudade feliz no sentido mais inocente do termo. Hoje, como em tantas outras ocasiões, deixei meu coração abrir as gavetas do que de melhor guardo nele: a infância, a tenra malícia da aurora de minha vida (apud Casimiro de Abreu), a crença em sonhos utópicos totalmente plausíveis naquelas brisas juvenis. Ah, como era bom viajar pelo conforto das nuvens, brincar de adivinhar melodias, transcender o poder da dor e da maldade. Deleites ímpares nos brindavam sorvetes e pirulitos açucarados ao extremo. Brinquedos, joguetes, chistes bobos. Tudo tinha seu próprio gosto, sua própria marca, seu toque único. Um carrossel rumo ao infinito, uma jornada pelos confins da verdade. Mas sabem do que mais sinto falta? De meus amigos. Dos poucos mas verdadeiros que colhi nesses dias idos. Sim, os amigos únicos, indispensáveis e insubstituíveis cultivados naquelas tardes de amor. Como me dói vê-los, hoje, apenas de relance ou por meios tão impessoais (como esse) que nem posso considerar como um encontro. Tenho saudade dos sorvetes na Doce Deleite. Das meias horas na pracinha da Vila Paraíso. Das brigas eternas de dois dias. Das descobertas nada inocentes que nos ruborizavam a face. Sinto falta de cada abraço, de cada piada, de cada deboche, de cada intriga. Meus amigos auxiliaram a construir o que sou hoje. Eles aprimoraram, lapidaram essa alma que tenta lhes contar o quanto ainda os ama. É uma pena que muitas vezes demoremos a perceber nossas verdadeiras ligações. É uma pena que muitas vezes tenhamos que nos separar quilômetros e quilômetros a fim de nos darmos conta do valor de outrem. Este texto parece mais um desabafo mal-acabado. Esse texto parece mais um arroto pós-almoço de domingo. Talvez ele o seja. Espero, no entanto, que ele sirva para demonstrar aos que o dedico a estima infinita e o carinho eterno que lhes devoto, talvez por vezes nebulado pelo descaso de uma mente errante, mas sempre presente em cada anoitecer, em cada brilho de estrela. Espero que, se outras vidas houver, possamos jogar ciranda juntos novamente.

"Wo sind all die Indianer hin, wann verlor das große Ziel den Sinn, so wie Chingachgook für das Gute stehn, letzter Mohikaner unter Geiern nach dem Rechten sehn."

3 comentários:

Acervo Café Frio disse...

Com certeza tu já me conheces...E sabe o que penso deste texto. Temos que conversar pois pretendo usá-lo em uma "invenção" minha.
Te amo

Anônimo disse...

arroto de domingo, haha, muito bem colocado. e como eu comento em um domingo claro e abafado, eu digo, querida anandica, que além de amar teus textos eu me identifico mucho com eles. sempre.
dessa vez não foi diferente. espero poder fazer parte (acho que faço nééé hihihi) da "ciranda nova" da tua vida. a mesma falta que sentimos dos antigos amigos... mas a mesma esperança pelos amigos novos.

amei anandica!
beijão!

Felipe Severo disse...

Também sinto falta dos primeiros amigos, lá de Dom Pedrito, quando nós íamos um na casa do outro, jogar algum jogo de tabuleiro ou de videogame qualquer... Na última vez que fui encontrei um antigo melhor amigo trabalhando. Me deu uma dor por tudo que eu deixei escapar por preguiça de ir atrás. Assim foi com três gerações de amigos. Não quero e não vou deixar vocês serem apenas mais uma quarta geração de amigos. Nunca!