Era uma vez uma menininha que não tinha uma boneca. De tanto esperar o tempo passar ela se viu crescer sem direito a consolo ou desabafo. Lana era sua amiga imaginária e ninguém mais lhe servia de amparo na solidão ou no escuro recheado de medos e monstros. Essa menininha era esquizitinha por demais, desengonçada ao extremo e estapafúrdia de dar dó. Esquecida em meio a espelhos e vaidades, uma criança imersa em si mesma e em seu pequeno mundo de sonhos e contos de fadas nunca presenteados aos seus minúsculos ouvidos. Cachinhos dourados caíam-lhe pela face, seus lábios se escondiam em meio às sombras de seus medos e de suas carências. Menina de poucas palavas e muitas incertezas. Suas covinhas brindavam a face com um resplandecer digno do mais belo dia de sol. Um instante de pureza e solidez em meio ao tempestuoso caráter infantil daquele ser de poucos centímetros. Um anjo desprendido dos céus a vagar por uma terra de demências e inconstâncias. Uma errante pequenina perdida num oceano de passos desencontrados e atitudes mal pensadas. Erros sucessivos a lhe cercar, a lhe ferir, a lhe punir. Menina não contava uma década de vida quando embebida em muito medo e em pouca lucidez jogou-se da mais alta murada de sua cidade. Caiu, perplexa e inerte, fixando o olhar nos gigantes que passavam. Olhos piedosos, pupilas marcados pela compaixão ou pela necessidade de sentir algo maior do que o descaso automático e natural para com os desconhecidos. Sentiu a morte, mas esta não julgou menina digna de sua grande face negra. Menina não se mexia. Ninguém mexia em menina. Tudo rodopiava como carossel insano, tal qual serpente irada, e ninguem parecia solidário ou corajoso o suficiente a fim de ampará-la. Cerrou as pálpebras, deixou cair a primeira lágrima da qual se recordava e ignorou a claridade que insistia em franzir-lhe a fronte. Horas se passaram e neste lapso no tempo menina viajou por recantos imaginários, desejosa de amor, de carinho, de atenção. Menina enxerga um futuro de luz, de paz, envolta a amigos, família, vida. A criança que padece, sozinha, vislumbra um futuro tão distante quanto inútil. Melhor seria abrir os olhos e admitir o tamanho do estrago. Ao fazê-lo, em sua frente, parado e surpreso, um menininho ainda mais jovem do que ela, com um olhar de espanto e um semi-sorriso de amparo nos lábios. Menina não sabia de quem se tratava, o que desejava ou por que a observava. Mas, de forma estranha e intuitiva, deu graças aos céus por ter despencado num monte de feno. Menino estendeu a mão para cachinhos dourados naquela tarde e sem saber salvou-lhe a vida, a alma, a esperança em desvendar seus próprios mistérios. Menino abriu caminho ao desabrochar de uma flor que muito ainda despetalar-se-ia, não deixando, no entanto de exalar perfume e cor ao que lhe cercaria dali em diante. O acaso estendendo as mãos à piedade e ao desespero. E, acreditem se quiserem, o final foi feliz mesmo que não pra sempre.
"E quando tudo está perdido, sempre existe um caminho... e quando tudo está perdido, sempre existe uma luz."
Um comentário:
"Ei moleca, pra onde vc vai? Por esse lado, cê tá perdida. Cadê tua mãe, cadê teu pai? Nessa vida cruel, nessa vida bandida..."
¬¬'
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